quinta-feira, 24 de abril de 2008

A Solidão Do Olhar De Um Estranho Anjo


Atraído pelos humanos,

Um Estranho Anjo pousou

Em um prédio de uma cidade

Que pode ser a do

Rio de Janeiro,

Que pode ser a de

São Paulo,

Que pode ser a de

Los Angeles,

Que pode ser a de

New York,

Que pode ser qualquer

Grande cidade de um mundo

De pequenos seres

Que fingem ser grandes.


O Estranho Anjo

E a sua curiosidade

Admitiram um olhar em direção

A toda e qualquer pequena almazinha

Na cidade,

Um arremedo de almas perdidas

E algumas poucas encontráveis

Em meio ao lixo urbano

Acumulativo de pó de pequenos seres,

De areia para pequenos seres,

De barro com pequenos seres,

De cuspe engolido por pequenos seres,

De mijo bebido por pequenos seres,

De vômitos degustados por pequenos seres

E de fezes conservadas por pequenos seres.


Estranhamente curioso,

O Estranho Anjo permaneceu

Lá no alto do prédio,

Permaneceu olhando os pequenos seres,

Permaneceu visualizando

Uma prostituta sendo estuprada

Por dois policiais,

Um menino de rua sendo queimado vivo

Por cinco rapazes de boa família,

Uma doméstica ser espancada

Por quatro outros rapazes de boa família,

Um menino ser arrastado por quilômetros

Preso a um carro dirigido por bandidos,

Uma menina ser jogada da janela

De seu apartamento.


Mais curioso ainda,

O Estranho Anjo continou

Lá no alto do prédio,

Permaneceu olhando os pequenos seres,

Permaneceu visualizando

A epidemia de dengue,

A epidemia da AIDS,

A epidemia dos preconceitos,

A epidemia dos descasos,

A epidemia dos roubos,

A epidemia das friezas,

A epidemia da alienação,

A epidemia das ideologias,

A epidemia da inação,

A epidemia da burocratização,

A epidemia das injustiças,

A epidemia dos aprisionamentos,

A epidemia dos julamentos,

A epidemia dos linchamentos.


Mais curioso,

Muito mais curioso,

O Estranho Anjo continuou

Lá no alto do prédio,

Permaneceu olhando os pequenos seres,

Permaneceu visualizando

Um assassino psicopata

Ser julgado e absolvido,

Um assassino dos próprios pais

Ser encoberto pela família e esquecido,

Uma assassina dos próprios pais

Fingir arrependimento,

Uma assassina da própria filha

Também fingir arrependimento,

Um assassino de animais

Praticando suas atrocidades,

Um assassino de integridades

Roubando de milhões as suas liberdades.


O Estranho Anjo continuou curioso,

Lá no alto do prédio,

Viu ainda países ocupados

Por outras nações

Que os espoliam.


O Estranho Anjo continuou curioso,

Lá no alto do prédio,

Viu ainda uma mãe

Jogando a própria filha

Em um rio para livrar-se dela.


O Estranho Anjo continuou curioso,

Lá no alto do prédio,

Viu ainda um homem-bomba

Matar centenas em nome

De um Falso Deus.


O Estranho Anjo continuou curioso,

Lá no alto do prédio,

Viu a pedofilia na Internet,

Viu a necrofilia na Internet,

E demais outras filias na Internet

E fora da Internet.


O Estranho Anjo continuou curioso,

Lá no alto do prédio,

Viu o Passado Terrestre,

Viu o Presente Terrestre,

Viu o Futuro Terrestre...


E lá do alto do prédio

Se lançou ao solo,

Era um Anjo Caído

Que se tornou humano.


Viram um Anjo morto

No asfalto,

Um suicida de brancas asas

Morto no asfalto.


"Um mutante,"

Dirão alguns.


"Um alienígena",

Dirão outros.


"Um Anjo",

Dirão muito poucos.


Ele se suicidou,

O Estranho Anjo Caído

Se suicidou

Porque encontrou na Terra

Mais Solidão do que havia

Lá onde ele residia,

Uma Solidão que o seu olhar

Languidamente refletia.


Ele se suicidou,

O Estranho Anjo Caído

Se suicidou,

Queria encontrar algo aqui

Que não há no Alto,

Queria encontrar,

Frustrou-se com o que visualizou,

Arrependeu-se da sua Queda,

Suicidou-se para não ter que caminhar

Entre um monte de merdas

Chamadas seres humanos,

Seres humanos de merda

Acompanhados por toda merda

Possível

Presente em todas as Esferas

Do Baixo

Cheias de merda.


Inominável Ser

NESTE MUNDO DE MERDA

CAMINHANDO ENTRE

AS MERDAS

DOS SERES HUMANOS




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