sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Lágrimas Desérticas


Estou em um deserto distante
Das fertilidades suntuosas
De altas alegrias que para
A minha visão tardia
São longínquas dádivas.
Sinto-me muito vazio,
Sinto-me vadiamente solitário,
Deserticamente pálido,
Deserticamente retardado
Em minha viagem
Por virgens verdes campos
Onde florescem belas flores
Que eternamente jazem
Imortais semiguais
Em altiva languidez
Como a languidez
De uma mulher verdadeira
Que jamais conheci...

Não vou falar de mulheres,
Não quero falar de mulheres,
Findou-se a veneração minha
Por essas filhas de Eva
Com a Serpente Do Éden,
A Serpente que não é
O meu amigo
Diabo
Lúcifer
Satanás!

Quente deserto,
Quentes lágrimas,
Choro contigo,
Amigo Diabo,
As mágoas serpentinas
Que caem como confetes
No tenebroso carnaval
Da minha garganta cortada
Por uma gilete
Quando há anos
Dos quais não me lembro
Tentei fazer com que
Todas as minhas quentes
Lágrimas desérticas
Parassem de cair
Dos meus desérticos
Olhos desérticos.

Teus olhos choram
Lágrimas desérticas,
Meu amigo,
Meu irmão Diabo?

Teus quentes olhos,
Que assistiram a todo
Tolo desgraçado choroso
Como eu aqui em deserto
De violento espectro
A emoldurar o meu
Desgraçado rosto,
Meu irmão Diabo,
Andarilho dos horizontes
Que não velam pelos
Seus mortos sorridentes
Em praias decadentes,
Choram?

De tanto lhe culparem
Até pelo assassinato
De verdadeiros inimigos
Desta rota pequena Humanidade,
Meu muito amigo irmão
Andarilho Diabo,
Tu chorastes?

Eu choro pelos meus crimes,
Aqueles crimes,
Que Tu me vistes cometer
Em meus tempos de
Aquosa barbárie.
Lembro-me do sangue
Banhando-me,
Lembro-me do grito
De jovens estupradas,
Lembro de todos
Aqueles que incinerei...

Com os rostos desconhecidos
De muitos,
Puro Diabo,
Pratiquei crimes
Que eternamente deram-se
Como estas
Lágrimas desérticas
Em meus desérticos olhos!

Fui um mau pai,
Fui um mau filho,
Fui uma má mulher,
Fui,
Amigo Diabo
Que sempre é
Diabo
Lúcifer
Satanás,
Sob vestes antigas perdidas
Serpente sem Éden
Matando Evas
E Adões
Aos sorrisos desérticos,
Às gargalhadas desérticas!

Quantas delas...
Quantas delas...
Lágrimas desérticas,
Caiam bem devagar agora,
Incinerem-me o rosto,
Incinerem-me n’alma,
Incinerem-me...

Amigo Diabo,
Não,
Por favor,
Pelo favor mais grandioso,
Não enxugue nenhuma
Destas minhas quentes
Lágrimas desérticas,
Lágrimas bem vertidas
Sobre os abismos feridos
Do meu desértico corpo...

Meu corpo é deserto...
Meu corpo é um deserto...
Não,
Amigo Diabo,
Não quero as mulheres,
Não quero os homens,
A Deusa Carne
Deserticamente está em mim
Assassinada lacrimejante,
Sou apenas um espantalho
Sacudindo deserticamente
Pelos desérticos caminhos
Os seus ossos desérticos,
A sua pele desértica...

Amor nenhum,
Amigo Diabo,
Será tão meu consolo
Como a vossa presença
À esquerda do meu
Desértico Espírito
Desértico.

Deserto é o amor,
Desértica é Afrodite,
A Deusa Do Amor
Que sempre me odiou,
Rindo de mim com
Todo desértico escárnio
Através dos risos
De desértico desprezo
Dos rostos de todas
As filhas Dela que
Tentei deserticamente obter.

Morte à Afrodite,
Morte à Deusa Do Amor,
Amigo Diabo!
Prefiro o ódio,
O ódio de mim mesmo
Por ser deserto,
Ódio pelo meu próprio
Olhar brandindo desertos
Enquanto os exércitos
De paraísos secretos marcham
Pelas Estradas Do Infinito!

Vida às minhas
Desérticas lágrimas,
Amigo Diabo!
Prefiro chorar desertos
Através dos meus olhos
Do que ser novamente
Um homem tentado
Em um deserto chamado
Alegria
E Amor
Por um Deus desgraçado
Que caiu desértico
Do meu altar,
Por uma Deusa Afrodite
Que caiu desértica
Do meu Espírito!
Diabo amigo imortal,
Amigo Diabo,
Companheiro Diabo,
Prefiro ser um desgraçado
Em desgraça nos desertos
Das minhas lágrimas,
Lágrimas desérticas,
Do que um grato
Nas graças desérticas
Do todo do deserto humano!

A Humanidade é um deserto,
Amigo Diabo!

Os humanos são desertos,
Amigo Diabo!

Sou maior do que
A Humanidade
E todos os humanos,
Amigo Diabo,
Porque prefiro as minhas
Lágrimas desérticas
Do que cidades povoadas
Por desérticas ilusões
Veneradas amadas
Por todo o resto
Dos terrestres desérticos
Que alimentam-se de desertos
Pensando serem a lavagem
Que deserticamente saboreiam
Acreditando-se algum dia
Felizes.

Dou três gargalhadas,
Amigo Diabo,
Agora,
Debochando deles!

Chega!
Retornem,
Lágrimas desérticas!
Retornem junto ao meu
Amigo Diabo,
Quero chorar desertos,
Quero venerar desertos,
Quero amar desertos,
Quero...
Quero...
Sim,
Amigo Diabo...
Sim...
Quero um túmulo verdadeiro
Para repousar este túmulo
Desértico túmulo
Que é o meu deserto
Que desgraçadamente,
Que deserticamente,
Ainda fico a chamar
De meu corpo...

Inominável Ser

DESERTICAMENTE

CHORANDO





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