quinta-feira, 9 de abril de 2009

Feliz Aniversário, Amigo Irmão Baudelaire!


09 de abril de 2009


São João de Meriti


Rio de Janeiro


Brasil


00:38 h



Caro imortal eterno amigo irmão Charles Pierre Baudelaire...


Em uma hora na qual as criaturas noturnas divagam iluminadas pela lua cheia que poetiza no escuro firmamento; em um hora na qual apenas há o silêncio das coisas vadias humanas e uns poucos latidos de cães que, como todos os animais, são melhores do que as companhias humanas; em uma hora na qual se erguem os fantasmas dos antigos tempos nos quais Pan se entregava ao lamber das vaginas de ninfas fogosas e exuberantes, cujos seios fartos e nádegas avantajadas encorajavam os sátiros a caçarem-nas quando nuas corriam, safadas e libertinas, pelos campos; em uma hora na qual os Portões Infernais são abertos e Demônios rondam os Universos, estando aqui perto de mim meu Demônio Da Guarda Maormer; em uma hora na qual os Vampiros vagam caçando vítimas despreparadas para as suas imemoriais presas feitas de antigas cascas de mundos bizarros; em uma hora na qual este Inominável Ser amigo vosso, irmão vosso, se sente verdadeiramente parte deste mundo infestado de tédio e ruína, esta carta é escrita na data de seu aniversário, a data na qual tu tomastes o invólucro físico em França e reinastes como o soberano dos tumulares versos que até hoje encantam os bardos que caminham vertiginosos pelos cemitérios.


Te sinto sempre comigo, meu amigo, meu irmão, te sinto mesmo... A herança que carrego, lembremos, foi também a ti dada pelo Velho, ah, O Grande Velho, nosso Pai com o corpo coberto de chagas e dançando, envolto por palhas! Herança Da Cova, Herança Do Abismo... Levamos tempos para nos acostumarmos com tal Herança, mas a Eternidade nos mostrou a Verdade e tal Verdade veio como uma sentença a nos encaminhar em nossos poéticos tesouros. Somos Coveiros, somos do Abismo, somos dos Infernos e não há como renegar a importância da nossa filiação a tão nobres Impérios. Nossa poesia para poucos é, somos de uma tribo poética quase relegada ao esquecimento total e absoluto, mas vingamos em número e qualidade em todas as Eras do mundo. Tu sentes isto, Baudelaire, tu sentes... Ah, como somos tão filhos do tempo antigo! Ah, como somos tão ligados aos Antigos Tempos! E a nossa Mãe, a Lilith que, com O Velho, nos ensina cada vez mais a sermos os poetas que somos, acende uma rubra vela aos nossos pés...


Quantas putas tivemos antigamente... Quantas rameiras fodemos antigamente... Quantas putas e rameiras imundas nos foderam antigamente... Talvez, por isso, as putas da atualidade e as moças de família me ignorem, mas tudo bem, já encontrei Aquela que eu sempre procurei nesta atual encarnação, como tu A encontrastes em vossa última encarnação. O paraíso realmente significa uma entrada na segurança dos cemitérios, estes cemitérios que carregamos, infinitos, dentro de nós. Gostamos de cada um deles, cada um deles nos reforça a maneira de sermos e existirmos, de gozarmos com plenitude da serpentina seguridade da nossa poética atitude. E juntos tivemos tantas atitudes naquelas antigas épocas, meu amigo, meu irmão...


Falemos de poesia! Vou lhe mostrar três poemas que fiz em um emprego que tive como estoquista, rodeado por vermes que sequer eu gostava e que me repugnavam por serem medíocres, atrasados, torpes, primitivos e acomodados, como a maioria humana está nestes tempos de crise financeira internacional. Mas, em nosso tempo em França já não era assim? Sim, era, mas falemos disso em outra hora, agora quero que leias o primeiro poema que escrevi, logo no primeiro dia do meu honrado trabalho, do qual eu muito gostava, admito, apesar das desavenças e atritos com seres com os quais não tenho nada a ver nem na chuva, nem na neblina e nem em dias de sol.



No estoque


Entre as caixas,

Entre desconhecidos,

Assim é o passo meu

Nesta hora de todas

As muitas horas

Do meu estar sempre

Em estoques

Dos mais perfeitos.


Quando vou sair

Do estoque

De todas as lojas

Do meu emprego sem altos salários

De homem

De macho

De pensador

De poeta

De filósofo?


Quando tomará rumo

O meu encaminhar

Nos submundos

Em direção

Aos ultramundos?


Quando isso tudo

Vai?


Quanto disso tudo fica?


Que tempo diferente

Cresce?


Qual tempo igual fica?


Oeste ou

Nordeste?


Sul ou leste?


Sudoeste ou

Centro?


Não concebo direitos,

Não concebo receios,

O túmulo se assemelha

Ao conteúdo do estoque

O estoque d'alma

Minha

O estoque d'espírito

Meu

O estoque do Eu

Meu...


Caralho

A quentura do estoque mais pesado

É foda!


25 de novembro de 2008



Foda, Baudelaire, o instante acima de reflexão para a minha humana situação... Porém, muitos sentem esses estoques n'alma, tu os sentistes tão pesados como eu ou outro Ser esteja neste momento a sentir... Falhas do íntimo, falhas da Queda ou o nosso Verdadeiro Caminho é mesmo ser um estoque de sofrimentos e tormentos a fazerem parte dos ingredientes de um grande bolo denominado Existencial Lamento?


E as caixas vão se acumulando...



Rota Dominante


Eu estou entre as caixas,

As caixas que guardam

As relíquias douradas,

Lado meu,

Lado seu,

Com quem eu dialogo?


Talvez tu aqui

Ao meu lado

Seja a consciência

Minha

Que se transporta

Em Verdade.


Talvez tu aqui

Diante de mim

Venha me roubar

Um tanto de sanidade,

Eu me importo,

Eu me transporto.


Talvez,

Sempre um talvez,

Sempre o talvez,

Talvez como o de

Nietzsche Sartre Rousseau

Kierkegaard Kant Hegel...


Dúvidas do sempre,

Dúvidas aqui sempre,

Desconhecido Ser,

Destemido Ser,

Ser Ser Ser Ser Ser Ser

Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu...


De tanto poder cair,

De tanto podre cair,

Meu Deus Que Não Existe,

Eu seguro no cajado

Do Grande Eremita

E me apoio um pouco...


Me apoio me apoio me apoio

Mas sou um idoso,

Um idoso de infinitos

Cajados apoiantes,

Minha corcunda é

Das mais grandes...


Tu aqui perto,

Tu aqui perto de mim,

Meus ossinhos vão

Caindo em ninhos,

Pássaros mordem-me,

O Diabo me dá sorte...


28 de novembro de 2008



Encontro sempre O Diabo por aí, Baudelaire, aqui na Cova, nas minhas entranhas, n'alma minha de poeta sabedor da Verbalidade Infernal como vós também sois. Nós O encontramos sempre, Baudelaire, quando a névoa a encobrir os Vales Tenebrosos dispersam as chamas cadentes e chamam as Verdadeiras Chamas. O Diabo vem sempre sorrindo e dando-nos chaves, chaves bem pequenas de ouro maciço e abridoras de portas impenetráveis aos olhos cegados pelas mentiras da cristandade. O Diabo nosso Doutrinador atiça-nos a poética verbalidade, O Inferno todo nos acompanha, glorifiquemos-Lhe em nós, nos esbaldemos nas delícias de um Ser que se revira dentro de nós...


Nós, Baudelaire, cadáveres...



Espaço Dos Cadáveres


Entrego meus ossos,

Cansados ossos

De trinta e um mil

E dois anos

De cadavérica caminhada

Neste cadavérico mundo,

Aos penosos cânticos

Que estou a entoar

Em meus próximos

Trinta e um mil

E dois anos

Por aqui...

Por aqui,

A Terra.

A Morta Terra,

A Cadavérica Terra,

Rota de ossos

Que são quebrados,

Rota de ossos

Que são mastigados,

Ossos de guerreiros,

Ossos de sábios,

Ossos de medíocres,

Eterno contorno

Dos ossod,

Eterno desencanto

Dos ossos,

Eterno retorno

Dos ossos...

Lúcifer beijou

O último dos meus

Luciferinos ossos

Quando gritei,

Pela última vez,

Na última batalha

Lá no Alto,

Pelo meu

Verdadeiro Nome...

Filhote De Leoa,

Filhote De Loba,

Filhote De Serpente,

Qual A Segunda

Dos Primeiros

E Dos Terceiros

Maiores Movimentos

De Todas As Coisas?”

Eis aí

A indagação de Lúcifer,

Eis aqui

A minha resposta a Lúcifer:

Ossos caindo

Ossos caindo

Ossos caindo

Um dois três...


02 de dezembro de 2008



Saíram assim, amigo Baudelaire, os poemas que escrevo para ti nesta carta. O ápice em Lúcifer, nosso Iluminador, foi um facho que segui determinado a colher em meus ossos a melhor origem explicativa de todos os meus terríveis fracassos e poucos sucessos. No entanto, eu não fracasso e nem obtenho sucesso, amigo irmão Baudelaire, eu simplesmente sigo a flecha de meu próprio cadavérico caminhar e me guio pela Vontade em construir para mim o meu Paraíso, o meu Olimpo, o meu Campos Elíseos, através das letras e do tumular escavar de todas as coisas neste mundo e nos Reinos Da Escuridão E Das Trevas. Lúcifer que conhecemos bem mostra A Estrada e bem seguimos os passos Dele e fazemos os nossos próprios passos, acendendo nossas tochas diante dos túmulos dos nossos passados. Vivemos, Baudelaire, como cadáveres para um mundo decidido a suicidar-se, a eternamente suicidar-se... E aniquilamos o suicídio do mundo em nós assassinando os ilusórios pergaminhos dos livros das humanas existências esmagáveis. Lúcifer Acendeu-Se em nós e nós nos acendemos em Lúcifer, quais pergaminhos de maior vulto na histórias de nossas Caminhadas Existenciais.


Findo esta carta aqui, meu amigo, meu irmão. Tu sempre me ouves nos momentos mais dramáticos, mesmo que eu me esqueça de chamar-te pelo nome. Ah, eu sei, tu quer ser também reconhecido sem ter um nome... Ah, eu sei... Bem, que este aniversário te eternize ainda mais na História, que sua aura de poesia maior percorra ainda mais os tempos que virão além dos tempos que virão. Foi bom escrever-te, estava precisando conversar com um amigo de verdade. Foi bom contatar-te, estava mesmo precisando, Baudelaire, da vossa essencialidade. E é eternizante, Baudelaire, a vossa inspirante voz sempre a sussurrar aos meus humanos ouvidos os versos mais embriagados pela pureza da cova mais embriagante... Reconheço-te agora como o inspirador dos poemas acima, muito obrigado, meu amigo, meu irmão, Baudelaire, muito obrigado!



Do seu amigo e irmão

Inominável Ser











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