domingo, 31 de julho de 2016

Contabilizando Todas As Nossas Mortalhas


Aviva Rocks - Satyr


Juntemos nossos cacos,
os quebradiços pedaços
dos nossos barcos
há muito naufragados,
antes que nos afoguemos
em outros oceanos
cheios de tantos outros cacos
de barcos despedaçados…

Juntemos nossos retalhos,
os pedaços das vestes
de nossos sonhos rasgados
pela Passagem Temporal,
pelo Vento Mortal
e pelo derrocar de
cada um dos nossos
risos ao final…

Juntemos nossos escombros,
o que sobrou de todos
os nossos castelos de areia
que foram derrubados
por cada um dos giros
da Roda Da Fortuna,
nos dignemos a recolher
o entulho que em nós
se acumula…

Juntemos nossos detritos,
o lixo que se tornou
nossas ambições de outrora,
cada alto objetivo
que trocamos para alcançarmos
altos picos de montanhas
repletos de infindáveis
tesouros mais do que materiais,
tesouros estes próximos
à Eternidade…

Juntemos nossos ossos,
o que se acumula nos caixões
onde estamos deitados
em nossas aconchegantes
profundas covas,
com carinho para
não quebrar qualquer um
de nossos únicos bens,
bens estes que contam
as histórias de nossos
grandes fracassos,
grandes perdas
e grandes decepções…

Juntemos nossos trapos,
as roupas que sobraram
em nossos armários
de imagens apresentáveis
ao mundo,
já não somos nada jovens,
já não temos mais vigor,
já não corremos como antes
e já não contemos a beleza
de cremos em esperanças
que se concretizem
positivamente…

Juntemos nossos cânticos,
a música que faz nossos pés
ao nos arrastarmos
por qualquer lugar,
melodia que anuncia nosso
catastrófico zumbido
em meio a outros tantos
caóticos ruídos,
terrível harmonia musical
de dois amigos
de Deuses Desafinados…

Juntemos nossas filosofias,
as artimanhas ainda vibrantes
de nossas mentes,
as manhas ainda gritantes
de nossos pensamentos,
os axiomas angustiados
de nossas obscuras visões
sobre a decadente paisagem
deste mundo de encartes
descartáveis ao longo
de cada esquina
sem decupagem…

Juntemos nossas poesias,
os versos de nossas declarações
de derrotas,
os versos de nossas afirmações
de decadências,
os versos de nossas confirmações
niilistas,
os versos de nosso tumulto
interior,
os versos de nosso túmulo
exterior,
os versos,
nossos únicos amigos
amados amantes…

Juntemos nossas almas,
Inominável Coveira
Do Labirinto Invisível,
dando um abraço prolongado
dentro de cada milímetro
dos espaços que ainda
iremos percorrer,
caminhando de mãos dadas
com muito cuidado
por cada trajeto que ainda
será nossa trágica estrada
neste mundo fadado a ser
nossa pior mortalha…

Inominável Ser
INOMINÁVEL 
CONTABILISTA 
AO LADO
DE UMA
INOMINÁVEL 
COVEIRA
NO LABIRINTO
INVISÍVEL





Sonhando - Álvares de Azevedo



Hier, la nuit d’été, que nous prêtait ses voiles,
Était digne de toi, tant elle avait d’étoiles!
VICTOR HUGO


Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida... ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma...
De noite, aos serenos, a areia é tão fria...
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam — a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia...
O seio gelou?...
Não durmas assim!
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!

Dormia: — na fronte que níveo suar...
Que mão regelada no lânguido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar...
Não durmas assim...
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu...
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
Espera por mim!




sábado, 30 de julho de 2016

A Meia-Noite D'Alma



A chave está perdida,
A fechadura está quebrada,
Como um homem
Ou uma mulher
Na meia-noite
De suas respectivas almas
Poderão abrir
As Secretas Portas Aladas?

A escuridão é amiga
Do homem
E da mulher
No momento existencial
Da meia-noite n’alma
Contraída,
Em desespero,
Dolorida…

A plural ausência
De qualquer conforto
É a essência da solidão
Que se apega
Ao amargo gosto
Da derrota,
Do desgaste
E do desgosto…

Não há humano
Remédio
Para tua meia-noite,
Homem!
Não há humano
Remédio
Para tua meia-noite,
Mulher!

O que há
É uma sombra pairando
Sobre a alma,
Aniquiladora da mensagem
Que vem de lugares
Onde os ventos
Sopram puros,
Belos
E selvagens…

Por que choras,
Homem?
Por que choras,
Mulher?
Suportai a meia-noite
N’alma,
Suportai como Guerreiros
Que não se envergam
Nos campos de
Batalha!

Pois,
Nós,
Os da meia-noite
N’alma,
Não temos
Amigos prontos
Para nos ajudarem
Aqui,
Do lado de lá
E do Outro Lado.

Nenhum Deus
Acima de nossas
Almas,
Nem mesmo
Um Demônio
Atrelado às nossas
Almas,
Pode nos ajudar
Na marcha da
Meia-noite
Que nos abraça.

Livros não trarão
Caminhos para a saída;
Religiões não aliviarão
Pesos sem medidas;
Bebidas não calarão
Vozes internas impiedosas;
Fodas não apagarão
Imagens externas pegajosas;
Nada,
Meu homem,
Minha mulher,
Deste mundo fadado
Ao Limbo Das Eras
Poderá lhes tirar
A meia-noite
D’alma!

Os lobos
Sempre uivarão!
Os leões
Sempre rugirão!
As serpentes
Sempre sibilarão!
As corujas
Sempre piarão!
As formigas
Sempre trabalharão!
Os morcegos
Sempre voarão!
Os ratos
Sempre roerão!
Sempre,
Meu caro
Homem,
Minha cara
Mulher,
Na meia-noite
De nossas almas!

Como ascender
A alma
Ao meio-dia,
Meu querido
Homem,
Minha querida
Mulher?
Querem um
Caminho?
Querem um
Veículo?
Querem
Asas?
Querem
Armas?
Ou querem
Uma sepultura,
Algo bem à altura
De covardes incapazes
De compreenderem
A meia-noite
De suas almas?

Sobrevivência
É a meia-noite
D'alma;
Morte
É a meia-noite
D’alma;
Construção
É a meia-noite
D’alma;
Destruição
É a meia-noite
D'alma,
Meu amado
Homem,
Minha amada
Mulher.

Sobreviver ou morrer,
Morrer e morrer:
É A Chave?
Construir e destruir,
Destruir e destruir:
É A Fechadura?
Descubram por
Si Mesmos
Dançando
E cantando
Na chuva
Da meia-noite
De suas almas…

Inominável Ser
NA MEIA-NOITE
D’ALMA
DELE 




sexta-feira, 29 de julho de 2016

Apenas Um Gole Nesta Madrugada...


Girl With Red At Stairs - Red Wall - Fabian Perez 


Apenas um gole
Nesta madrugada
Para me fazer esquecer
Das amargas estradas
Que já percorri,
Que percorro
E que ainda vou percorrer…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para poder fazer sair
Cada atadura nefasta
Que prende meu coração,
Que desarma minha mente
E que corrói minha alma…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para me fazer livre
De cada dever serviçal
Que não quero para mim,
Que nunca quis para mim
E que nunca vou querer…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para que eu esqueça
Das contínuas derrotas
Que no Ontem foram muitas,
Que no Hoje são todas
E que no Amanhã serão rotas…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para que abortadas sejam
As lembranças de tempos
Que foram bem melhores,
Que foram benevolentes
E que são ainda aqui presentes…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para que eu não pense
Em cada feminil dama
Que me arrassou e destruiu,
Que me despreza e ignora
E que me abandonará e trairá…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para ser oferecido
Ao sujo santo
Que me aterrorizou,
Que me arrasta
E que me impede a marcha…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para meu funeral
Entre as cobertas
Que não me aquecem,
Que nunca me aqueceram
E que nunca me aquecerão…

Apenas um gole
Nesta madrugada
Para ser comemorada
Toda mortalha
Que destroça meus atos,
Que destroçou meus barcos
E que destroçará meus arcos…

Apenas um gole
Nesta madrugada,
Trevosa Mulher,
Para as mágoas
Que me foram imãs,
Que me são irmãs
E que serão minhas ilhas…

Apenas um gole
Nesta madrugada,
Tenebrosa Mulher,
Para a tristeza
Que me é companheira,
Que me foi Mestra
E que será minha eterna esposa…

Apenas um gole
Nesta madrugada,
Terrível Mulher,
Para a Poesia
Que me consolou,
Que me conforta
E que é minha Cova…

Apenas um gole
Nesta madrugada,
Minha doce
Irmã Das Trevas…

Inominável Ser
BEBENDO
APENAS
UM GOLE
NESTA
MADRUGADA