segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Enterrando Dez Cadáveres Para Maria Padilha Da Calunga



As dez covas abri
No meio do
Grande Cemitério,
Maria Padilha da Calunga
Me ofereceu ao fim
Três goles de
Seu vinho
E nove pitadas
Em Seu cigarro.

“É o trabalho,
Moço,
Temos que continuar
Bem firmes
Aqui enterrando
Osso!”

Ela me apontou
O primeiro cadáver
Para ser enterrado,
O mesmo havia
Sido enforcado,
Tinha marcas de tiros
E lhe faltavam
Os braços.

“Foi um traficante,
Moço,
Abusador de meninas,
Crianças,
Que eu trouxe
Pra cá
Para ser meu
Escravo.”

Ela me apontou
O segundo cadáver,
Havia nele um cheiro
De podridão nefasta,
Estava cheio de vermes
E já não se via mais
O que seu rosto
Era.

“Esse aí foi avarento,
Moço,
Não ajudava ninguém
E deixou a própria
Família inteira
Morrer de fome,
Merece ficar aqui
Comigo
Acorrentado.”

Ela me apontou
O terceiro cadáver,
Que tinha olhos
Perfurados,
Dentes
Arrancados,
Língua
Cortada
E novecentas
Punhaladas
Da cabeça
Aos pés.

“Esse foi um assassino
De tudo que se movia,
Moço,
Matava gente,
Matava bicho,
Matava até árvore,
Mas,
Hoje é meu
Prisioneiro aqui
Em minha casa.”

Ela me apontou
O quarto cadáver,
Jazia sem as pernas,
Os olhos estavam
Abertos
E todos os ossos
Expostos,
Pontiagudos
E quebradiços.

“Esse aí foi duro
Com todo mundo,
Moço,
Um agiota assassino
Que matou até criança
Quando não lhe
Pagavam,
Um otário agora
Meu,
Escravo afinado.”

Ela me apontou
O quinto cadáver,
Estava nu
E com todo o corpo
Cheio de ferimentos,
Além do pênis
E dos testículos
Não se fazerem
Presentes.

“Estuprador
E pedófilo,
Moço,
O tipo de gente
Que mais vem parar
Aqui na minha
Casa,
Ele é só mais um
Que vou apertar
Muito bem
As correntes
No pescoço
E nas pernas.”

Ela me apontou
O sexto cadáver,
Dava para olhar
Todo o interior
Do mesmo,
Ele foi aberto
Ao meio
Com uma faca,
Os órgãos eram comidos
Pelos vermes,
Tinha no rosto
Uma feição
De infindo
Desespero.

“Esse aí filmava
Filmes com mortes
De verdade,
Moço,
Vendia para uns
Vagabundos
Que em breve
Estarão aqui comigo,
Exibia isso naquilo
Que chamam de
Internet,
Agora ele é exibido
Por mim
Aos Caveiras
Que aqui vem
Conversar comigo.”

Ela me apontou
O sétimo cadáver,
Estava sem a cabeça
E os dedos
Dos pés
E das mãos,
Cheio de marcas
De tortura
Por tudo o que
Restara
Do corpo.

“Esse aí foi
Torturador,
Moço,
Arrancador de tripas
De mulheres,
Arrombador de cus
De homens,
E hoje é meu
Escravo obediente
Até que aprenda
A ser gente
De verdade.”

Ela me apontou
O oitavo cadáver,
De terno
E gravata,
O rosto cortado
Por navalha,
Os dentes
Quebrados
E um cheiro
De óleo queimado
No tecido apodrecido
Da roupa.

“Esse aí se escondia
Atrás da Bíblia,
Moço,
Para traficar
Drogas,
Prostituir
Garotinhas novas,
Comer as mesmas
E as mães delas,
Roubar dinheiro
Dos otários que o
Chamavam
De ‘pastor’,
E mandar matar
Seus desafetos,
E hoje está aqui
Recebendo do pão
Que ele mesmo
Amassou.”

Ela me apontou
O nono cadáver,
Estava fardado
Como um soldado
De algum exército,
Trazia nos braços
Marcas de agulhas,
Tinha pelo corpo todo
Punhais cravados
E da boca saiam
Vermes gigantes
Embolorados.

“Esse aí foi um sujeito
Que obedecia ordens,
Moço,
Arrasou cidades,
Matou velhos,
Matou criança,
Matou mulheres,
Matou homens
E estuprou bastante
Muita gente,
Para vir parar aqui
Comigo
Desse jeito
Deprimente.”

Ela me apontou
O décimo cadáver,
O de um Papa
Há séculos morto,
Um dejeto imortal
Repleto de abundante
Podridão
E vermes,
Um mau cheiro
Formidável
E a pele se
Reconstituindo
À medida que era
Comida
Pelos vibrantes
Vermes.

“Esse aí é o mais antigo
Daqui,
Moço,
Usou o nome do
Deus dele
Para levar milhões
À morte
E como castigo
Vai passar ainda
Muito tempo aqui
Comigo,
Sendo sacrificado
Por ele mesmo
Sem parar.”

Eu enterrei
Cada um,
Cada cadáver
Que ela me apontou,
Com sobriedade
E silêncio,
Enquanto Ela mantinha
Os espíritos
Dos mesmos
E de outros
Atrás Dela,
Inumeráveis
Acorrentados,
Inumeráveis
Escravos.

“Você enterrou hoje,
Moço,
O que já havia enterrado
Ontem,
Venha aqui agora
E beba
E fume
Comigo,
Agora descanse.”

Deixei a pá acima
Da última cova
Que fechei,
Caminhei até Ela,
Tomei nove goles
De vinho,
Traguei três vezes
O cigarro Dela,
Que me observava
Séria,
Que me observava
Reta.

“Toma cuidado,
Moço,
Para não se tornar
Um dos meus
Escravos aqui.
Sou Tua Guardiã,
Mas,
Cuidado com o que
Você escolhe
Do lado que hoje
Está.”

Eu olhei para Ela
E vi que ainda
Tinha muita cova
Para abrir,
Muitos outros
Amanhã
E hoje
E ontem
Vou enterrar.

“Trabalho nunca é demais,
Moço,
Gostei de ver
A tua escolha,
Vamos continuar
Por aqui
Até o galo cantar
Um milhão de vezes
Onde o sol
Jamais irá nascer!”

E Ela,
Enfim,
Gargalhou,
Estremecendo
O Grande Cemitério
E me colocando
Como um dos
Coveiros
Sempre dispostos
A servi-La
Pela eternidade
Sem fim
Dos enterros
De cadáveres
Deteriorados
No corpo,
Na mente
E na eterna
Alma.

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

LAROYE POMBOGIRA

Inominável Ser
INOMINÁVEL
COVEIRO
DE
MARIA PADILHA
DA CALUNGA




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