sábado, 14 de janeiro de 2017

O Indiferente - Guilherme de Almeida



Ele passou no meu caminho,
por acaso...
Morria um lírio, alvo e sozinho,
no meu vaso;
rolava a tarde pela face
do sol-posto,
como uma lágrima que andasse
pelo rosto...
E ele não viu que desse pobre
lírio doente
vinha este luto que me cobre
tristemente;
e que essa tarde era tão cheia
de amargura,
porque em meus olhos espelhei-a
com ternura...
Nem viu que eu via, no seu vulto
longo e lento,
o céu que o amor traz sempre oculto
num momento;
que estas olheiras de saudades
são exílios,
prendendo os olhos entre as grades
dos meus cílios;
que a sua sombra, pela estrada,
sobre a alfombra,
era minha alma disfarçada
numa sombra;
que o coração, no seu compasso
contrafeito,
marcava o ritmo do seu passo
no meu peito;
que era o meu hálito sem calma
todo o encanto
da viração, que punha uma alma
no seu manto...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Mulheres... Movem-se como uma
pluma ao vento...
Mas – ah! – quem é que empresta à pluma
movimento?
Se o vento passa, a pluma faz-se
de inconstante...
Mas fica a pluma: o vento... vai-se
num instante!




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