terça-feira, 4 de julho de 2017

Invernos, Cigarros & Tardes


Smoke - Mario Teodosio

Somente um gélido vento bate
em minha pele ardendo,
nos muitos muros da
cidade acidentada,
nos muitos rostos
da multidão acorrentada
e nos muitos campos
que ainda restam
entre os gigantes
de aço
e de ferro.
É apenas uma
tarde de Inverno,
mas quantas tardes
podem ser tão cortantes
diante da geleira
que se amontoa
dentro de uma alma
solitária?

Pergunta inspira.
Pergunta insólita.
Pergunta boba.
Pergunta escrita.
Pergunta escrota.
E a resposta é um sopro
muito mais forte
do vento gélido soprado
pelos Gigantes Do Gelo
com suas cruéis gargantas
e ferozes rostos.
É uma resposta cheia também
de massacradas manchas
que sujam o solo onde
cada pé congelado pisa.
Um solo onde as cinzas
de cigarros acesos com desgosto
desaparecem com gosto
no ponto crescente
de diversas farpas.

É um cigarro aceso
por mundanos de todas
as horas,
por mundanas de todas
as covas.
Baforadas lentas.
Baforadas violentas.
Baforadas rápidas.
Baforadas áridas.
Baforadas quentes.
Baforadas frias.
E a fumaça impera
trazendo cada lembrança
sobre um amanhã
sem esperança,
um ontem
sem alegrias
e um hoje
sem graça.

E por isso fumamos,
querida fantasma
de uma imagem nascida
de uma mente
tão cortante quanto
a minha.
Fumamos ao vento.
Fumamos ao relento.
Fumamos ao fundo.
Fumamos ao centro.
Fumamos ao anoitecer.
Fumamos ao amanhecer.
Fumamos ao entardecer.
Neste Inverno,
então,
é um hábito que mais
louvamos.

Louvamos na quietude.
Louvamos na altitude.
Louvemos no silêncio.
Louvamos no cimento.
Louvamos no piso.
Louvamos no frio.
No frio,
O Frio,
de cada tarde invernal
inspiradora das missões
de versos invernais.
No frio,
O Frio,
acarretando precipícios
e alargando abismos
onde é possível escrever
sob a neve,
lagos congeladas,
cachoeiras congeladas,
montanhas congeladas,
céus congelados
e infernos congelados.
No frio,
O Frio,
inspirador de poetas,
Amantes Dele
cheios de puros
e impuros fetiches
e desejos,
como eu,
invernais poetas
com os dois pés
nas Geleiras Universais
Eternas.

Está frio,
o cigarro precisa estar
sempre aceso.

Está frio,
o Inverno precisa estar
sempre aqui.

Está frio,
as tardes invernais precisam
ser sempre daqui.

Está frio,
devemos dormir aqui,
devemos acordar aqui.

Inominável Ser
UM POETA
QUE AMA
O FRIO
E TARDES
INVERNAIS




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