quarta-feira, 25 de abril de 2018

O Medo E A Melancolia - Ana Clara Piai



O medo que carrego para a cama a noite é pálido e têm longos cabelos prateados cheios de flores.

Ele, o medo, é quase tão belos quanto a Melancolia que me beija todas as manhãs quando percebo-me ainda viva. Aquela sensaçãozinha de vazio que oprime o peito assim que abro meus olhos...

Me distraio. Tento fazê-lo. Finjo que há coisas urgentes a resolver... A Melancolia esquálida quase apática, vai de um lado para o outro atrás de mim. Sempre levando um pires com uma vela acesa sobre ele.  Por vezes, num descuido, seus cabelos caem sobre a vela e ela incendeia. Ela derrete sobre o calor como que feita de cera. Ela pinga, deforma e escorre pelo chão... Tudo vejo, mais ninguém vê. Na manhã seguinte, ela volta. É cíclico. Deja-vú. 

O medo, chega com a noite, tem ares sedutor. Dorme de conchinha comigo, soprando minha nuca. E ele gosta de contar histórias para eu adormecer, então murmura nos meus ouvidos até que o Orpheu se apiede de mim e leve-me para seu reino.





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